ESCREVIVÊNCIA E PARTILHA DO SENSÍVEL: CORPO, VIOLÊNCIA E RECONFIGURAÇÃO ESTÉTICA EM CONCEIÇÃO EVARISTO E JARID ARRAES
DOI:
https://doi.org/10.25112/rpr.v2.4686Resumo
Este artigo analisa de que modo as obras Ana Davenga, conto constituinte de Olhos d’água, de Conceição Evaristo, e, Um buraco com meu nome, de Jarid Arraes, reconfiguram os modos de representação da experiência negra na literatura brasileiro-contemporânea. A investigação parte da hipótese de que essas produções não apenas tematizam sujeitos historicamente silenciados, mas tensionam os próprios fundamentos epistemológicos da teoria literária tradicional. Para isso, mobiliza-se uma abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e analítico-interpretativa, articulando os conceitos de escrevivência, partilha do sensível e inconsciente estético. A partir de Rancière (2009), compreende-se a literatura como prática capaz de redistribuir o visível, o dizível e o pensável. Em diálogo com Mbembe (2016) e com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, o estudo situa as obras no contexto da violência estrutural brasileira, marcada pela incidência desproporcional sobre corpos negros, femininos e periféricos. A análise evidencia que Evaristo e Arraes fazem da linguagem um espaço de memória, denúncia e resistência, deslocando a literatura de uma função meramente representacional para uma prática de produção do sensível. Conclui-se que a literatura negro-brasileira contemporânea atua como força estética, política e epistemológica de reconfiguração do comum.
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