A PARTE QUE SE QUER TODO: SINCERIDADE, METONÍMIA E A URGÊNCIA DA PARTICULARIDADE EM SOLITÁRIA, DE ELIANA ALVES CRUZ
DOI:
https://doi.org/10.25112/rpr.v2.4684Resumo
A partir do episódio provocado pela entrevista da tradutora Aurora Bernardini, em que obras de Elena Ferrante, Annie Ernaux e Itamar Vieira Junior são desqualificadas como literatura por privilegiarem o conteúdo em detrimento da forma, este ensaio reflete sobre os contornos de uma estética negro-brasileira em relação dialética com a ideia de identidade nacional e sua crise. Tomando como objeto o romance Solitária (2022), de Eliana Alves Cruz, o ensaio argumenta que o excesso de expressividade do conteúdo que caracteriza a obra não constitui uma insuficiência formal, mas uma configuração estética historicamente determinada, aqui denominada sinceridade como condição. Através do diálogo com a New Sincerity norte-americana, com a teoria da alegoria nacional de Fredric Jameson e com a tríade dialética de György Lukács, o ensaio propõe que Solitária opera não como alegoria mas como metonímia da crise nacional brasileira, e que suas principais manobras formais — a urgência da particularidade, a inversão da ordem singular-típico e a construção do Golden Plate como parte que se quer todo — respondem a uma demanda histórica que o romance não pode recusar. Na última seção, a partir do conceito de políticas de memória de Paul Ricoeur e da distinção entre Darstellung e Vertretung em Gayatri Spivak, o ensaio examina o paradoxo constitutivo dessa demanda e as tensões que ela impõe tanto à produção quanto à recepção crítica da literatura negro-brasileira contemporânea.
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