SILÊNCIO E A REGULAÇÃO DO AFETO: MASCULINIDADES NEGRAS EM PONCIÁ VICÊNCIO
DOI:
https://doi.org/10.25112/rpr.v2.4642Resumo
Este artigo analisa as dinâmicas de silêncio e a interdição do afeto associadas às masculinidades negras no romance Ponciá Vicêncio (2003), de Conceição Evaristo. Parte-se da hipótese de que os personagens masculinos são configurados sob um regime de silenciamento que, ao mesmo tempo, reproduz e tensiona a colonialidade do ser, o racismo estrutural e o patriarcado. A análise, de caráter discursivo-literário, orienta-se por uma perspectiva interseccional e decolonial, em diálogo com Frantz Fanon (2008), Nelson Maldonado-Torres (2022), Neusa Santos Souza (1983) e bell hooks (2021). Argumenta-se que o silêncio, no romance, não se reduz à ausência discursiva, mas constitui uma tecnologia de regulação afetiva, por meio da qual se organizam tanto os efeitos da violência histórica sobre a subjetividade negra quanto estratégias ambivalentes de sobrevivência. A leitura de diferentes configurações de masculinidade, do trauma herdado do avô à paternidade contida, da formação identitária de Luandi às estratégias de adaptação de Soldado Nestor, evidencia que a contenção afetiva opera como marca da desumanização colonial e, simultaneamente, como possibilidade de resistência. Sustenta-se, por fim, que a obra inscreve uma pluralidade de masculinidades negras que desafiam os regimes hegemônicos de representação ao reinscrever o afeto como campo de disputa política.
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